Eu deixei o tempo passar, as coisas se acentarem, mas é que agora eu vivo em desassossego. Eu olho para aquela caixa de e-mails como se ela fosse piscar novamente e uma nova mensagem sua fosse encher meu coração de alegria.
O dia está tão quente! O calor é tanto que a gente não sente quando os olhos ficam embotados de suor que, bem verdade, poderiam ser lágrimas.
Mas eu não quero chorar. Eu quero arrancar esse desassossego que uma mensagem despretensiosa às 23h45 do último dia do ano trouxe. Eu queria tirar o desassossego que a busca por significados ocultos. O Google não responde mais. Nem os sites esotéricos. Nem o yahoo respostas.
Eu procuro na internet notícias suas. Fotos. Relatos. Qualquer sinal, além daquele de que você está vivo e bem.
Eu sei que você está vivo. E gostaria que estivesse bem ao meu lado. De ter horas calmas de fuga e de leveza... eu queria você.
Eu queria o contato fácil e sem medo e sem peso que isso tudo virou depois que você se foi.
Há muito tempo eu não sinto uma dor tão grande, tão paralisante quando alguém vai. Porque a maior parte das pessoas que passaram pela minha vida poderiam estar só de passagem. Eu não ligava. Eu não ligo.
Agora você? Eu gostaria que você ficasse... e afagasse a minha cabeça, enquanto a gente ainda estava nos lençóis dizendo que eu preciso ser mais imaginativa. Eu sou. Mas é que a vida tem sido tão dura e tão pesada, que eu escolhi a casca. E você me lembrava da doçura, da leveza, da felicidade boba que eu trazia comigo antes da vida ter me transformado nisso que eu virei e eu nem sei direito o que é.
Porque você é sopro e doçura e exister está pesado e feio. A gente olha para o lado e está desesperançado e você me escreve dizendo que era para ter fé que não costuma falhar.
Eu esqueci a magia. E foi a magia que trouxe você para mim. E era tudo azul. E eu luto para que esse azul volte a tomar conta de mim e que você volte porque eu quero morar nesse azul.
A memória é mesmo traidora, não é?
E eu me vi cercada delas enquanto viajava por aquele local que forjou a sua personalidade bem no dia do seu aniversário. O dia que você encheu de graça, leveza a humanidade encarregando-se de ser a pessoa das narrativas não peculiares.
Um simples "oi". Um simples "saudades" engordados por um pouco mais de lembrança foram matéria-prima suficiente para que você elevasse ainda mais a muralha que existe entre nós, alicerçada nos seus longos silêncios. As palavras saíram feito tijolos. Uma atrás da outra, aumentando o muro que separa aquilo que um dia existiu.
Doeu.
Doeu e mesmo antes que as resoluções de ano novo chegassem como a minha lista veio encabeçada pelo "nunca mais vou procurá-lo".
Mas quis o destino ser irônico, quando o ano-novo já rompia as horas que você resolveu desejar que o meu ritual para o ano fosse bom. E foi mesmo antes de saber do seu desejo.
O curioso é que as paredes deram lugar às portas e os abismos foram preenchidos por pontes que, embora firmes, permanecem vazias porque eu prometi não cruzá-las.
Mas a cabeça fervilha, fervilha, fervilha...
Em 24/01/2017 contendo a ebulição cerebral porque a cabeça fervilha
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