Tenho pensado em como a beleza das palavras
pode transformar nossa existência. E falo das palavras em suas mais diversas
variações como música ou como livro, prosa ou poesia. É quase catártico ou é
apenas catártico.
Por isso me perdi viajando na possibilidade de como seria bom morar dentro das
narrativas – só as belas!
Porque o deserto do real é horrível. E é como se vivêssemos
em um espiral louco e que nos jogasse de um lado para o outro sempre do mesmo
jeito. Ou sempre variando os lados para que as escoriações da existência fossem apenas leve.
Eu entrei dentro de um desses espirais e a sensação de já
ter vivido aquilo tudo é tão intensa e chega agravada pelas expectativas de
“sabemos que vai doer e nos resta saber quando e como vai doer”. A sensação é
como aquela que antecede à puxada posterior ao processo de colocar a cera
depilatória em uma temperatura confortável na sua pele. Vai doer! Você sabe que
vai. Mesmo que os seus pelos já estejam rareando, ainda assim, vai doer.
E você sabe que vai. E você calmamente espera, segurando
fixamente na maca imaginária da existência, esperando que, desta vez, por Deus,
não doa.
A cera já foi colocada. Estou deitada na maca existencial
justamente naquele momento que antecede a puxada. O calor é agradável e eu
espero, sinceramente, que dessa vez não doa.
Mas já doeu.