sábado, 20 de junho de 2015

Por uma fermata* na existência




Eu sei que a vida anda dura demais.

Porque existir é difícil e não faz muito sentido. E existir nesse Brasil, que se afoga na onda conservadora e que varre para bem longe a capacidade de uns se colocarem no lugar dos outros, é ainda mais pesado.

Eu sei.

E entendo que não podemos parar por completo porque corremos o risco de retroceder mais do que já retrocedemos. No entanto,  eu acho que a gente precisa de pausa, de respiro.

Porque, apesar da dureza, o  Brasil é tão rico e a gente precisa lutar tanto para fazer o país justo que acaba esquecendo de viver a arte e a poesia.

De ver a flor, enquanto a carne sangra no espinho.

Uma pausa.

Um respiro, entre rolas e Malafaias.

Contemplar o belo e beleza. Sentir o lirismo.

Porque não precisar ser dor o tempo todo. Pode ser desejo. E pode ser fuga e deve ser fuga porque viver precisa ser suportável.

Eu sei que estamos em guerra, mas a vida não precisa ser trincheira o tempo todo.

Pode e deve ser pausa e contemplação.

Não é sempre. É só hoje. Porque todos nós merecemos um dia bonito, mesmo que o céu esteja cinza.

Merecemos poesia. Palavras. Ternura. Mesmo que seja por um momento.

Então, pare. E olhe a flor. E leia o poema. Compartilhe a música ou cena do filme.

Então, pare. Olhe e diga que me ama.

* Fermata, também conhecida por Suspensão em italiano, significa parada.


Em 20/06/2015 dando uma pausa para contemplar.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Atualizando...

O intervalo era curto. Menos de segundo era o tempo que demorava para que ela apertasse o botão F5 do computador. Atualizava a página com tanta velocidade. Aguardava ali a resposta da vida. O bilhete premiado. A sorte que alteraria o curso da sua jornada.

E ela apertava. A caixa de entrada, mal carregava e já era atualizada de novo.

E de novo.

E de novo.

E de novo.

Ela não cansava. Aguardava ansiosa aquela mensagem que seria a resposta da vida. O bilhete premiado. A sorte que alteraria o curso da sua jornada.

Esperava em vão.

Não trocou e-mail.

Era impossível acreditar que ele escreveria, despretensiosamente, porque a urgência que ela sentia era também a urgência que ele sentia.

Nenhum google para buscar aquela informaçãozinha que não era foco da conversa.

Mais uma vez atualizar.

Acabou a luz. Acabou a energia da bateria. Era preciso esperar. Ela esperou, mas não sem sonhar acordada. Dormiu e, no dia seguinte, a vida seguiu o curso planejado. O e-mail não chegou. Mas ela está curada.


Em 09/06/2015 apertando desesperadamente o F5 da vida para que existência seja atualizada.