sexta-feira, 31 de março de 2017

Fábrica de poemas

Houve um tempo em que, a cada dia, sorteava um poema e dedicava a você. Acho que era minha maneira tímida e silenciosa de transbordar para o mundo, todos a poesia que, de repente, passou a fazer parte da minha vida só porque, agora, você também era parte dela.

Ainda hoje quando me procura a solidão (fim de quem ama), garimpo livros em busca de versos que possam repetir aquele sentimento que não tem nem nome, nem cor. É uma busca em vão.

Em vão porque o que foi, não é mais.

O que havia não se repete.

Quem esteve já não está mais aqui.

Eu olho para o espaço ao meu redor e está tudo exatamente igual. Talvez, um pouco maior porque está vazio e você já não se projeta, palpável, quase real.

Escrevo para encontrar respostas e preencher vazios de quem, agora é só uma lembrança.

Em 31 de março de 2017, cantando chega de saudade.

domingo, 12 de março de 2017

Notas sobre um grande amor...

Ela estava convicta de que faria uma lista trivial apontando as diversas características de um grande amor. Ela também estava convicta de que aquela história que havia alterado o eixo magnético do seu corpo (se é que corpos possuem eixos magnéticos) era, de fato, um grande amor.

Mas, depois de muito tempo diante da tela do computador em branco, ela já não tinha tanta certeza nem das características, nem do que ela havia vivido. Não estava maluca a ponto de confundir platonismo com realidade, embora fosse dada, com muita frequência, à viver uma existência platônica.

Levantou. Bebeu um copo de água na tentativa vã de espantar o calor que molhara lugares poucos prováveis da sua roupa. Pensou que se estivesse no cinema, neste momento, acenderia um cigarro, daria uma tragada profunda que seria acompanhada por uma dose longa de alguma bebida destilada. De novo, a realidade era bem diferente do que a ficção.

Pensava em todas as coisas que havia sentido. Nos sintomas físicos. Na loucura emocional que era tão boa que apenas fizera dela uma pessoa mais alegre do que o habitual.

Pensava no modo como se sentia jovial, leve e viva. Como sorria de qualquer besteira. Como perdera o medo das mensagens trocadas. Dos sentimentos descobertos. De sorrir porque fazia sol. E de sorrir porque, eventualmente, fazia frio.

Lembrava como se sentia leve e fazia força para atar-se ao chão da realidade porque tinha certeza de que, se assim não fizesse, sairia flutuando por aí. Um padre de balões, sem final trágico e sem balões.

Lembrava também que aprendeu gestos afetuosos pelos quais ansiava ferozmente.

Mal-disse o poeta porque todas as suas notas sobre amor e tristeza haviam sindo, enfim, superadas porque ela descobriu que o grande amor podia ser também alegre.

Ajeitou os óculos do jeito que havia aprendido com ele. E lembrou-se de todas as manias que havia herdado e concluiu que não era mais a mesma pessoa. E gostava daquela pessoa na qual ela se transformara porque acreditava que os grandes amores, mesmo quando não permanecem, fazem a gente ser uma pessoa melhor. Para nós e para os outros.

Suspirou de saudade.

A tela do computador cotinuava em branco. Ela sabia que não podia fazer print da alma. As notas do grande amor estavam todas impressas nelas.

Em 12/03/2017, contratando um provedor para mandar um e-mail de amor.